O FRACASSO DO URBANISMO FUNCIONAL E O FUTURO DAS CIDADES FRAGMENTADAS – JURERÊ E SAPIENS –  DOIS SÍMBOLOS DE UM URBANISMO QUE JÁ NÃO FUNCIONA

O modelo funcionalista de cidade, consagrado pela Carta de Atenas de 1933, foi concebido para uma era industrial e automobilística. Le Corbusier e seus seguidores imaginaram cidades racionais, divididas por funções, morar em um setor, trabalhar em outro, consumir em outro e, para tudo isso, deslocar-se por vias largas e setorizadas. Essa lógica, à época revolucionária, tornou-se hoje um entrave à vida urbana contemporânea. O resultado desse urbanismo compartimentado são cidades engessadas, dependentes do automóvel, com longas distâncias entre casa e trabalho, ruas desertas e carência de vitalidade social.

Florianópolis é um retrato dessa herança ultrapassada. Seu Plano Diretor, ainda pautado no zoneamento rígido — como o artigo 42 e suas subdivisões (ARP, ARM, AMS, AMC) —, mantém viva a ideia de que cada área deve ter um único destino. O excesso de micro zoneamentos fragmenta o território de forma burocrática e ineficiente, sufocando o desenvolvimento natural das centralidades e impedindo a mistura de usos que dá vida às cidades vibrantes.

O caso de Jurerê Internacional ilustra o fracasso prático desse modelo, um bairro esteticamente exemplar, mas socialmente árido. Ali, a rigidez do zoneamento impede o florescimento do comércio local e dos serviços básicos — não há farmácias, padarias, cafés ou coworkings ao alcance dos moradores. Criou-se um bairro de “fachadas belas e calçadas vazias”, onde o automóvel é a única ponte entre as necessidades humanas e a vida cotidiana.

O Sapiens Parque segue a mesma trilha, planejado como polo tecnológico, mas com carências urbanas elementares. Embora disponha de infraestrutura moderna, iluminação especial e áreas verdes, carece de moradias, hotéis e comércios integrados. Trata-se, em essência, de um enclave de inovação isolado do tecido urbano — o oposto do conceito de “cidade viva”.

O urbanismo contemporâneo aponta para o modelo da cidade fragmentada, ou da “cidade de 15 minutos”, em que morar, trabalhar, estudar e consumir coexistem num mesmo espaço. Esse paradigma valoriza a integração, a diversidade de usos e a proximidade humana. Em vez de separar funções, reconecta a vida urbana. Florianópolis, se quiser ser moderna, precisa abandonar de vez o espírito da Carta de Atenas e abraçar o século XXI — onde a vitalidade da cidade nasce justamente da mistura e não da separação.

ADM. DILVO VICENTE TIRLONI PRESIDENTE

INFORMAÇÕES RELEVANTES

  • Nosso Plano Diretor recepciona o modelo de “cidade funcional”. De acordo com o artigo 42 do PD além de citar macro áreas estabelece um micro zoneamento rígido que não contribui para a eficiência da cidade.
  • Recentemente, uma construtora local de Santa Catarina, apresentou o sistema Park Haus, que permite o acesso direto do carro ao apartamento por meio de rampas internas, eliminando garagens subterrâneas e agregando, segundo o anúncio, conforto e segurança. Embora o conceito seja inovador, ele não se ajusta ao ideal de cidade fracionária, pois reforça a lógica da cidade funcional, onde o automóvel ocupa o centro da vida urbana. Em vez de promover integração, convivência e mobilidade coletiva, o modelo aprofunda o isolamento e privilegia a experiência individual em detrimento do espaço público.
  • O Sapiens Parque que é uma uma ideia genial e o Projeto Jurerê Internacional, são tipicamente projetos que atendem ao conceito de “cidade Funcional”

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