A LÍNGUA PORTUGUESA NÃO TEM COR – REFLEXÕES SOBRE A POSSE NA ABL E O RISCO DO REVISIONISMO LINGUÍSTICO. O DISCURSO QUE OFUSCOU A CONQUISTA

SUA GENIALIDADE REFINOU A GRAMÁTICA, A PROSÓDIA (pronúncia correta) E O VOCABULÁRIO, DEFININDO O PORTUGUÊS MODERNO

A eleição de Ana Maria Gonçalves para a Academia Brasileira de Letras é, sem dúvida, um marco histórico. Mulher negra, autora de um dos romances mais relevantes da literatura contemporânea brasileira — Um Defeito de Cor —, sua presença na ABL representa conquistas pessoais e culturais legítimas. No entanto, a posse que poderia simbolizar um momento de elevação do pensamento literário foi parcialmente comprometida por um discurso carregado de lacração ideológica.

Ao introduzir termos como pretuguês, escrevivência e oralitura, a nova acadêmica não apenas reivindicou um espaço identitário — o que é válido — mas o fez sob a ótica de uma militância que parece mais interessada em provocar clivagens do que em construir pontes. A língua portuguesa, rica e viva, sempre acolheu neologismos, desde que amparados por necessidade linguística, estética ou comunicacional. O que não se pode aceitar é que ela seja moldada por ressentimento ideológico ou por pressões de grupos que querem impor um revisionismo “racializado” à gramática.

A língua não tem cor, tem coerência. Não distingue brancos ou negros, nem outras etnias, mas sim sujeitos, verbos e predicados. Querem dar à estrutura linguística a responsabilidade de reparar injustiças sociais históricas — papel que pertence à educação, à equidade de oportunidades e à cultura, mas não à gramática normativa.

Se a presença negra em espaços de poder é relevante (e é), por que não há o mesmo apelo identitário nos esportes, onde negros e pardos são majoritários? Ninguém diz que os brancos são “minoria oprimida” no futebol ou no atletismo. Por quê? Porque o talento fala mais alto que o tom de pele — e é assim que deveria ser em todas as esferas.

Ana Maria Gonçalves possui méritos indiscutíveis, mas ao optar pela lacração, deixou a forma dominar o conteúdo. A missão da literatura é unir, elevar, e não reforçar abismos com tintas ideológicas. A língua portuguesa é o nosso elo comum — não deve ser rompido em nome de nenhuma militância.

ADM. DILVO VICENTE TIRLONI – PRESIDENTE

INFORMAÇÕES RELEVANTES

  • A eleição foi em 10/07/2025 e a posse de Ana Maria Gonçalves da Academia Brasileira de Letras (ABL) ocorreu em 07/11/2025, tornando a primeira mulher negra a ocupar a cadeira. Ela assumiu a cadeira de número 33.
  • O número de pessoas pardas no Brasil superou o de brancas pela primeira vez desde 1872, quando o censo foi criado. No ano passado, 92,1 milhões de pessoas se reconheciam pardas, enquanto 88,3 milhões, brancas. Os dados estão no Censo 2022 e foram divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). 
  • A Etnia branca já é minoria nas Universidades brasileiras. Segundo Censo do IBGE 60% pertencem a outras etnias que não a etnia branca. Majoritariamente, os esportes são dominados pela etnia parda e preta.
  • Um defeito de cor conta a saga de Kehinde, mulher negra que, aos oito anos, é sequestrada no Reino do Daomé, atual Benin, e trazida para ser escravizada na Ilha de Itaparica, na Bahia. No livro, Kehinde narra em detalhes a sua captura, a vida como escravizada, os seus amores, as desilusões, os sofrimentos, as viagens em busca de um de seus filhos e de sua religiosidade. 

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