TRANSPORTE MARÍTIMO A SOLUÇÃO É METROPOLITANA. BARCOS, TERMINAIS E DESENVOLVIMENTO REGIONAL
A manchete do ND de 22 de junho de 2026 é reveladora – “Falta de diálogo trava o transporte marítimo na Grande Florianópolis”. O problema, porém, vai além de uma divergência entre a Prefeitura de Florianópolis e o Governo do Estado. Trata-se de uma incompreensão sobre a própria natureza da região. A mobilidade marítima não pode ser tratada como projeto isolado de um município, nem como disputa de protagonismo entre governos. Ela precisa nascer como política pública regional.
A Grande Florianópolis é uma Região Metropolitana formalmente instituída, composta por municípios integrados por deslocamentos diários, atividades econômicas, serviços públicos e uma contínua expansão urbana. A legislação estadual criou a RMF justamente para permitir planejamento conjunto de funções de interesse comum, como mobilidade, saneamento, uso do solo e infraestrutura. A SUDESC, órgão estadual voltado ao desenvolvimento metropolitano, possui entre suas atribuições a integração dessas políticas e a articulação entre os municípios.
Florianópolis, São José, Palhoça e Biguaçu formam o núcleo econômico e urbano mais evidente dessa dinâmica. Todos os dias, milhares de trabalhadores atravessam pontes, rodovias e vias congestionadas para estudar, trabalhar, consumir, utilizar hospitais ou acessar serviços públicos. Não há sentido em imaginar que barcos partindo apenas da Ilha resolverão um problema que pertence a toda a região. Um “modelo unitário”, centrado exclusivamente em Florianópolis, tende a limitar demanda, reduzir escala e comprometer a viabilidade econômica.
O projeto correto deve ser concebido como uma rede metropolitana de terminais marítimos. Pelo menos quatro pontos devem ser estudados, Florianópolis, São José, Palhoça e Biguaçu. Cada terminal não pode ser apenas um píer de embarque e desembarque. Deve funcionar como centro de negócios, comércio, serviços, alimentação, estacionamento, integração com ônibus, táxis, aplicativos, ciclovias, áreas públicas e, conforme o local, atividades logísticas compatíveis.
Os barcos seriam apenas uma parte do investimento. O objetivo maior é criar polos urbanos conectados por via marítima, com capacidade de atrair empresas, gerar empregos, valorizar áreas subutilizadas e reduzir a pressão sobre a malha rodoviária. A lógica precisa ser semelhante à de uma concessão bem estruturada, o poder público organiza o território, licencia, remove entraves e estabelece regras; a iniciativa privada constrói, opera e assume os riscos empresariais.
Antes de qualquer anúncio, é indispensável formar uma governança corporativa metropolitana. A SUDESC deveria reunir os prefeitos, secretarias técnicas, entidades empresariais, universidades, órgãos ambientais, autoridades portuárias e representantes da sociedade. O primeiro passo seria definir localização dos terminais, integração urbana, estimativa de passageiros, impacto ambiental e modelo econômico.
A implantação exigirá intervenções à beira-mar, possivelmente aterros hidráulicos, dragagens, obras de acesso e licenciamento ambiental complexo. Isso envolve órgãos municipais, estaduais e federais. Por essa razão, improvisos ou projetos fragmentados apenas prolongam a paralisia.
Depois de elaborado o projeto técnico e ambiental, o conjunto deve ser apresentado ao mercado em um roadshow nacional e internacional. Não cabe ao contribuinte financiar aventuras mal planejadas. Cabe ao Estado e aos municípios preparar o ambiente, garantir segurança jurídica e atrair investidores capazes de transformar uma ideia regional em serviço eficiente. O transporte marítimo da Grande Florianópolis será viável quando deixar de ser promessa municipal e passar a ser projeto metropolitano.
ADM. DILVO VICENTE TIRLONI PRESIDENTE
INFORMAÇÃO RELEVANTE
- GOVERNANÇA CORPORATIVA
COORDENAÇÃO GERAL – SUDESC, reunindo o Governo do Estado e as Prefeituras de Florianópolis, São José, Palhoça e Biguaçu, IMA, IBAMA, ICMBio, Marinha do Brasil, Capitania dos Portos, SPU, ANTAQ, Defesa Civil, Ministério Público e Tribunal de Contas. Pelo setor privado, operadores portuários, concessionárias de transporte, construtoras, incorporadoras, fundos de infraestrutura, bancos regionais, seguradoras, ACIF, ACATE, CDL, FIESC, Fecomércio, FACISC, SINDUSCON, CREA-SC, CAU-SC e associações comerciais dos municípios podem representar o setor produtivo.
- INVESTIMENTOS
O projeto não deve ser visto apenas como transporte marítimo. Barcos e terminais são o meio de ligação; o verdadeiro negócio está nos ativos econômicos instalados ao redor deles. Pela ótica do investidor, cada terminal deve gerar receitas próprias com comércio, serviços, estacionamentos, restaurantes, hipermercados, centros médicos, escritórios, hotéis, marinas, publicidade, lazer e empreendimentos imobiliários compatíveis com cada área. Essa renda complementar reduz a dependência da tarifa paga pelo passageiro. Quanto maior a receita obtida com aluguéis, concessões e serviços, menor será a pressão sobre o valor da passagem. O transporte conecta os municípios; os negócios sustentam o investimento.
- MODELO ECONÔMICO
Modelo econômico é o estudo que demonstra como o projeto se sustenta e remunera investidores. Ele reúne receitas — passagens, aluguéis, comércio, estacionamentos, publicidade e serviços — e custos de obras, barcos, manutenção e operação. Quanto maior a renda gerada pelos terminais, menor a dependência da tarifa paga pelo passageiro e maior a viabilidade do sistema.
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